top of page

Rentrée

  • 25 de mar.
  • 2 min de leitura

E pronto. Talvez tenha imaginado algures no tempo, não recordo, que algum dia me sentaria novamente num café de Lisboa, com caneta e caderno, a rabiscar algo que não tivesse nada a ver com Medicina. Mas nas últimas semanas deixei de conseguir imaginar essa luz, nem sequer o final do túnel.


Chegámos e embora muita gente insista em dizer-me que é só o começo - e eu entendo o que querem dizer - tendo a discordar. Quem se mete em Medicina leva uma vida semelhante à de um atleta de alta competição desde os 5 anos de idade e na maioria das vezes só pára - ou só tem a hipótese de parar - quando acaba a especialidade. A especialidade está acabada e os meus lábios trocaram de pergunta. O "como raio é que eu vou conseguir fazer isto?" deu lugar ao "o que é que me apetece fazer hoje?" que até agora só se atrevia a aparecer em período de férias e das grandes.


Começando pelo princípio. Aprendi duas coisas durante esta tourada que vale a pena assentar já, não vá esquecer-me.

A primeira é que pensar com esta cabeça, não sendo uma estratégia isenta de complicações, acaba por compensar. Parece quase patético, mas todas as opções que tomei ao logo do internato, por pouco ortodoxas que fossem, permitiram-me deitar a cabeça na almofada de consciência tranquila e coração relativamente realizado durante 5 anos e acabaram até - pasme-se - por ser valorizadas durante esta semana. Foi preciso chegar ao fim de 5 anos para me dizerem que não estava maluca e agradeço muito que o tenham feito. Foi a coisa mais importante destes dias.


A segunda foi o mesmo de sempre. Daqui a alguns anos, não vou recordar-me das perguntas que me fizeram. Talvez não recorde sequer as respostas. Ou que aquilo que tenha dito já não seja válido, caído sob o peso da evidência científica nova, que se acumula cada dia.


Mas vou recordar a cara daqueles dois que tiraram dias das suas vidas para virem ver a amiga de sempre falar sobre feijões durante umas horas. A voz da minha mãe ao telefone. Os abraços dos 3 onde se guarda a certeza mais importante de todas: a grande obra da minha vida chamar-se-á sempre "família".


Agora o mundo, porra, o mundo. Mantive-me a par da engrenagem até à última semana, mas na reta final acabei por ceder. Ainda preciso de ouvir os plenários desta semana no parlamento e os 300 podcasts que se acumularam. Mas já percebi que durante a minha ausência da ágora comum uma boa parte dos direitos trans começaram a ir por água abaixo. Perdemos o Lobo Antunes e o Zambujal e aqui em Lisboa, a organização da Feira do Livro rejeitou a inclusão de uma série de editoras independentes por falta de espaço... estou capaz de apostar que o food court continua a ocupar metade da área disponível.


Por um lado, meu Deus, como isto anda depressa ou assim parece à superfície. Por outro, nem eu nem o mundo morremos se eu não estiver constantemente à espreita e talvez a minha saúde mental até agradeça. Para já, é bom estar de volta. A mim, acima de tudo. E ao Canal Parlamento. “À vontade” não é “à vontadinha”.

 
 
 

Comentários


nozes que juntam palavras

© 2017. Proudly created with Wix.com

bottom of page